terça-feira, 19 de agosto de 2014

rascunhos sobre a realidade

     Já faz alguns anos (quase 20) que o Ballard escreveu que a tarefa do escritor (artista) é inventar a realidade - duvido que ele soubesse o quão certo ele estava, e ao mesmo tempo o quão irrelevante é acertar no alvo.

    A obsessão na boca do coro é "hiperrealismo" (com outros nomes, assim como o diabo) e não por acaso todo e qualquer canal de televisão (e vivemos ainda em um mundo de "canais", e não de coisas livres, ainda bem) possui algum tipo de programa que pode ser descrito como "reality show", a expressão mais perfeita do fetiche cômico com aquilo que é real-ele-mesmo. É curioso como esse real é absolutamente impossível de se descrever de maneira satisfatória - parece ser basicamente algo que é justificável o suficiente em relação a alguns critérios estéticos nebulosos e antiquados. O real é aquilo que poderia acontecer em um romance do século XIX, e o resto é tosco, mal-feito, mal acabado, oco. O real é atraente pois supostamente ele se impõe com mais seriedade e força, se coloca acima daquilo que é apenas acessório/secundário/diabólico (essa maneira hierarquizante de separar os elementos para melhor dormir à noite está por todos os lados, desde a superestrutura marxista até a obsessão neo-punheteira cocainômana por listas - os dez melhores orgasmos que a sua mãe já teve, os quinze maiores fabricantes de gelatina, etc.) e, assim, se legitima apenas exatamente apenas porque acreditamos nele. O reality show é uma alucinação coletiva, um resquício de politesse vitoriana (outra fabricação imaginária deliciosa, um passado magnificamente opulento e virtuoso que é também o labirinto sadomasoquista da tuberculose e das infecções furunculosas observadas de perto por anjos confusos), um franzir o cenho e continuar andando rumo a lugar qualquer enquanto tanto faz. Existem, óbvio, críticas, pois o reality show existe em parte exatamente para ser dissecado, execrado, odiado, cuspido, etc --

     (Um adendo, antes que eu me esqueça: esse é outro fenômeno maravilhoso, a criação de conteúdo basicamente buscando o ódio, a aniquilação erótica de se transformar em um cristo invertido e perseguido, para-raio de chute salivante. A máxima maior é que não existe má publicidade - uma das últimas palavras dos sábios que guardamos. O que anima os posts de facebook de, por exemplo, um Olavo de Carvalho é um desejo macabro de auto-paródia monetizante extremamente próximo do que leva à produção de um filme como "Sharknado", a busca por ser chamado de "pior filme do mundo" e, portanto, colher os louros que tal título merece. Parece-me uma tentativa estranha de domesticar o que as pessoas acreditam ser a dialética, estar sempre um passo a frente do futuro e, assim, afirmar a própria savviness: "Eu sou o dono do mundo, e por isso sei inclusive o que vocês vão dizer em resposta a qualquer coisa que eu diga". Sacrifica-se a própria alma ou qualquer coisa parecida pelo prazer de estar certo - ou errado, nesse caso não há distinção. )

-- porém as críticas são perigosamente pueris, trabalhando por uma oposição tola. "O reality show é falso, claro, mas bom mesmo são esses documentários..." E note-se que não quero aí me filiar ao tedioso blablablá "mas na verdade a percepção...mas na verdade a representação...", só me irrita o fetiche, a sensação de que o real é, por si só, valoroso, vale defendê-lo, vale apontar que ele está lá, ele traz autoridade, traz sobriedade, traz realidade. O real não é sóbrio - o real é jornalistas sendo degolados por um califado, palavra basicamente fora de uso há um milênio, talvez, e o real é um líder mundial que se beneficia de uma pretensa virilidade executada em golpes de judô e domínio sobre ursos, e o real é pessoas que se reunem em grupos racionais para discutir como a tecnologia logo os fará viver para sempre, e o real é um presidente reencarnado em passarinho. Esteticamente, o apreço ao real é extremamente preguiçoso, desleixado, derrotista.

   Digo preguiçoso pois o real deseduca, dessensitiza para quaisquer outras sensibilidades que não as dele - e mesmo estas são, óbvio, transitórias, morrem línguas, cabelos, prédios, etc. Mas os viciados no real não sabem disso e, monoliticamente, tentam mover-se constantemente para manterem-se no mesmo lugar, relativamente ao real. São os seguidores da Rainha de Copas (Carroll: "Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place"), absortos em uma ordem psicótica e, não achando isso o suficiente, elegem-na democraticamente para guiá-los rumo a qualquer abismo particular, ignorando o fato de que, bem, ela já é uma Rainha. Essa seita é triste pois os torna cegos para qualquer outra coisa - quaisquer nomes que queiramos dar ao que está fora do real - ficcional, imaginário, extra-real, alienígena. É uma religião extremamente atéia - filiamo-nos somente àquilo que é (pretensamente) indiferente, exato, esparramado. E negamos, óbvio, a inteligência.

   Há aí uma arrogância humilde extremamente negativa - no sentido de negar possibilidades, resignar-se. O melhor possível - não só de uma perspectiva pragmática, ou hedonista, ou moral, ou biológica, mas também estética, um dos únicos domínios possíveis nos quais a mente pode impor-se de qualquer maneira - é apenas aquilo que está lá, o chão batido de terra, o seco, inverossímil, desmanchável e desestruturado. E a partir daí a mente deve ser infinitamente escrava do real, das "possibilidades", do "razoável" (e o pulo do gato é exatamente esse: o real não é razoável, ele é destrutivo e indiferente e, no limite, demoníaco, pagão, oposto à realidade (essa outra) humana - não confie em quem vê Gaia como deusa amigável e pessoal, que te acaricia e acolhe: ela é, por excelência, a sua morte e a decomposição de tudo que você já viu e sentiu - ele é a cristalização do que não é você, e, sendo você o juiz do que é razoável, dá para entender onde quero chegar...) e, assim, coloniza-se a própria inteligência com vírus mentais do "possível".

    Portanto terminamos com uma sequência interminável de filmes (o exemplo mais paradigmático pois mais cauteloso e conservador pois mais caro e trabalhoso) absolutamente ridículos - pois a realidade é ridícula, e aviões vazios controlados por deuses eletrônicos impessoais podem explodir a nossa casa e a nossa cabeça a qualquer instante - pautados em uma tentativa patética de serem "realistas", ou seja, agora não se pode mais chorar com grandiosidade e sem escorrer catarro, e a luz não pode mais iluminar a atriz como um halo que a torna impressionante, etc, pois, "na vida real" isso não acontece. Podemos apenas reencenar infinitamente os mesmos atos teatrais ruins que já perderam a graça há anos - as paródias globais, as conspirações mesquinhas políticas, etc. Mesmo uma obra sobre espíritos ou monstros tem de ser, "na verdade", sobre as últimas peripécias de Barack Obama.

    A tragédia disso tudo é que, por mais que nos prostremos e humilhemos, o real continua não se importando, e você acaba de se desfazer de tudo que você tinha, tudo que era você, na busca de apreço de um mestre não só cruel mas surdo, cego e entorpecido.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ah, que legal. A gente apaga o comentário e continua aparecendo ali. Então, segue o comentário apagado:

    Cheguei por acaso no blog, nunca li nada aqui. E, enfim, muito bom, cara. Muito, muito bom.
    Por alguma razão, ou todas, me lembrou o Peter Finch em Network:

    "I'm not going to take this anymore, I want you to get up right now sit go to your windows open them and stick head out yell I'm as mad hell and I'm not going to take this anymore!

    I'm a HUMAN BEING, God damn it! My life has VALUE!"

    https://www.youtube.com/watch?v=EXqs02lNQMM

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  3. cê não acha que dizer que o real dessensitiza (...) neste contexto já é cair numa dicotomia que necessita de pressuposições, inclusive a definição disso? claro que entendi seu ponto, mas.
    acho assim: pouco importa (em arte) classificar coisas em mais ou menos reais/realistas/fantasiosas/etc. não dá pra fazer isso sem partir de pressupostos e é meio bobo porque infrutífero. porque o legal da coisa toda é justamente essa infinitude de possibilidades de explorar a relação entre materialidade objetiva, subjetividade (e acaso e raciocínio) e a obra.

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