A idéia eu vi em algum texto do anarquista David Graeber, mas é corriqueira a ponto de sua afirmação como "verdade subestimada" já soar um pouco contraditória: uma das importâncias "esquecidas" da URSS (e da idéia de socialismo em aplicação em si, a presença do Inimigo/Outro/Alternativa encarnado) é o quanto ela obriga o "outro lado" (classicamente os EUA, mas há uma possível extensão metonímica para o "mundo ocidental") a, como se diz em inglês, "up their game". A ameaçadora sombra do socialismo é um constante lembrete de que, caso vocês (os governantes, o Estado, o Poder) vacilem, há uma outra opção concreta e ansiosa para mostrar o seu valor. De acordo com essa visão, diversos avanços nas legislações trabalhistas e na valorização do trabalho seriam, por exemplo, uma resposta ao suposto paraíso proletário sendo gestado na Rússia: é melhor que os "nossos" trabalhadores percebam um ganho real na sua vida e consumo antes que comecem a cobiçar o (real ou imaginado) padrão de vida socialista. Da mesma maneira, mas com sinal invertido, a liberalização posta em prática - a transmutação retroativa do Ocidente (cuja capital é a América) em "terra da liberdade" é feita em oposição ao totalitarismo soviético. Aqui vocês serão livres, diferente da vida sob um Stalin. Aqui o Estado não pode mandar em você, aqui o indivíduo é o senhor de si mesmo. A metamorfose operada aqui é bastante clara em como o liberalismo passa a ver a si mesmo: abandona-se o discurso de que "pessoas morrem de fome mesmo, isso é normal, os donos das empresas não devem se sentir mal por isso" e chega-se a "o liberalismo enriquece a todos!". Ao menos nisso os randianos continuam honestos. (A esquerda mesmo operará algo semelhante já em 1968, pós desestalinização, e principalmente pós-1991, quando se reestrutura em torno dos direitos humanos e, quando hábil, se desassocia via autocrítica dos excessos soviéticos.)
(É bom deixar claro que não considero essas operações plenamente conscientes, organizadas, conspiratórias - até mesmo porque essa idéia - uma reação organizada de toda sociedade, planejada minuciosamente - é um conceito essencialmente oposto ao laissez-faire liberalizante que o Ocidente estava tentando encarnar. São cruciais, também, diversos movimentos de esquerda inspirados claramente pelo próprio socialismo - desde as greves no início do século XX em diante, as conquistas trabalhistas nunca podem ser transformadas apenas em dádiva calculista dos Grandes Mestres. Na soma, porém, são reações quase "inconscientes" de uma sociedade, a soma de diversas micro-ações efetuadas por diversos sujeitos que, colocadas lado a lado, se transformam em uma onda que apontará para onde essa sociedade se dirige. Chamemos, parafraseando, de "Teoria das Sociedades Eficientes" (só as vezes). Soa óbvio, claro, mas sempre faço questão de bater nesse ponto para evitar que me confundam com um teórico da conspiração que imagina uma cabala sinistra decidindo o rumo de planetas com um rolar de dados.)
Levando isso a uma conclusão cinicamente lógica, pode-se ver nos ganhos obtidos dessa dinâmica um elogio exatamente à competição e ao livre-mercado. A presença de um modelo alternativo implica em uma busca mais séria por eficiência - pois você pode ser derrotado. É o mesmo argumento que se faz em prol da democracia: líderes eleitos buscam aprovação (que, vulgarmente, pode ser equiparada a algum tipo de sucesso na garantia ao menos de uma sensação de qualidade de vida) pois podem ser removidos; ditadores/tiranos/monarcas não precisam de aprovação e, portanto, não tem incentivo para buscarem o melhor para os seus cidadãos (...até a revolução, claro.)
Soa sacrílego, claro, apontar que um dos efeitos mais benéficos da existência do socialismo real é participar da mesma dinâmica (embora em escala global) capitalista que tentava-se abolir, mas a parte verdadeiramente cínica dessa visão é outra: sacrifica o bem-estar de uma parcela da população, transformando-a em, basicamente, "massa de manobra" para garantir o avanço de outra. Inegáveis que sejam as conquistas da URSS (principalmente a transformação de uma Rússia feudal em superpotência global), são também inegáveis os abusos e massacres e opressões postos em prática durante o regime, e inegável também que, sob basicamente qualquer ótica, o padrão de vida nos países desenvolvidos ocidentais ultrapassou com alguma tranquilidade o padrão soviético. Soa, portanto, um bocado cínico "apoiar" a dinâmica em prática quando da existência soviética apenas por seu papel influente no ocidente e ignorar exatamente os abusos que levam o ocidente a negar esse regime. Seria interessante analisar o efeito contrário - quais as consequências da presença do ocidente nas políticas socialistas - mas disso eu sei pouco: talvez a China de hoje seja o começo de uma resposta.
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