Escrevendo o texto abaixo pensei irresistivelmente em como esse tipo de "mistura" costuma soar proibida ou, no mínimo, deselegante. Nosso cérebro parece, por questões evolutivas ou não, pouco preparado para fugir a mentalidades de "tribo" - sempre foi pouco interessante (num sentido de sobrevivência) tender à traição do seu grupo. Costuma ser melhor para quem valoriza a própria vida defender os mesmos ideais do que aqueles à sua volta, da maneira mais ortodoxa possível. Quando algumas pessoas dizem que uma das coisas mais difíceis de se fazer no mundo é mudar de idéia ou de opinião, estão falando a verdade - quase sempre, o ônus social sofrido é maior do que qualquer ganho pessoal alcançável. Por conta disso, acaba-se criando ligações de identidade às vezes estranhas entre idéias, comportamentos e projetos, e, quando confrontados com visões diversas que captam pedaços dessas idéias e pedaços de outras, os membros desse "grupo" sentem-se afrontados. A idéia da heresia vem exatamente daqui - e, hoje, isso se radicaliza de maneiras curiosas. A chave está no encontro da semelhança e diferença e no desconforto gerado: o inimigo maior do republicano americano não é o terrorista islâmico cuja missão expressa é destruir a civilização da qual ele (o republicano) faz parte, mas sim o democrata americano - e vice-versa. O outro é sempre um espelho e, como aponta Freud, o paranóico irremediavelmente projeta nos outros o que ele é.
Aparentemente não compramos idéias, e sim pacotes fechados de idéias - identidades. Portanto quando uma idéia surge dissociada do pacote completo, a sensação imediata é de estranheza - traição. Fomos ensinados que essa idéia era nossa, e agora lá está ela, desfilando com outros. Acompanhada de idéias estranhas, até mesmo inimigas. É um golpe na realidade, de certa maneira. A reação será tão violenta quanto o sentimento do sujeito.
O mais comum é uma negação imediata - essa idéia não pode ser dele. É, portanto, mentira - ele não entendeu, ele não sabe do que fala, ele está dando o nome errado à coisa (há muito poder em nomear algo), ele está mentindo, ele é desonesto. Menos comum é o inverso: se a idéia é tão boa, então ele deve ser um de nós e não sabe - independentemente do que ele diz. Mais extremo ainda: se essa idéia é deles, então, na verdade, nunca poderia ter sido nossa - rejeitamo-la eterna e retroativamente.
O problema nisso é óbvio: desperdiçamos idéias boas por não virem do lugar certo. A identidade prévia do sujeito enunciador ganha mais importância do que o próprio discurso - em termos estruturalistas, nossos cérebros ainda não conseguiram de maneira alguma se adaptarem à "morte do autor". Não que quem fala algo não seja relevante - no mínimo, sabemos com alguma eficácia que alguns sujeitos são mais confiáveis quanto ao que dizem do que outros. Essa insistência constante, porém, e quase fetichista na identidade - que, aliás, parece bem condizente com colocações liberal-conservadoras como "o indivíduo é a menor minoria do mundo" e, ainda assim, é adotada de maneira acrítica muitas vezes pela esquerda - pode levar a um simples "enfraquecimento" das idéias, em relação a um parâmetro de eficiência. Quando o foco recai mais sobre a canonicidade de um argumento - se é nosso, se se encaixa entre os nossos - e menos sobre se, de fato, ele causará o efeito pressuposto, é provável que esses argumentos percam parte do seu poder "real" (não-retórico). Movimentos identitários que se apegam incessantemente ao poder infinito e inquestionável da experiência do sujeito x, pois o sujeito x é ______ me parecem correr risco de sofrerem mais por isso, mas essa é uma discussão para outro texto.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Parece-me que uma das chaves tanto do sucesso quanto do fracasso de Marina Silva vem de questões relacionadas a esse "problema". Quando dizem que Marina consegue ser muita coisa diferente para muita gente diferente, é um pouco disso que se fala. Ainda que a atração da tribo seja forte e radical, há algo de muito poderoso em quem aparentemente quebra as regras e diz "as coisas não precisam mais ser assim" - que é algo que Marina parece querer fazer quando incessantemente declara fazer a nova política. Fugir à situação de embate-refém e procurar alguma síntese entre argumentos que não se deixe abalar pelos dogmas de cada grupo e consiga, enfim, colocar em prática projetos & idéias de lados diferentes, "perdendo" menos do que cada grupo isolado perderia.
As reações são tão violentas exatamente pelo fato de ser uma postura herética - viola a base do pensamento de grupos e algumas certezas já consagradas. As respostas não se contentarão com apontamentos práticos: que isso é difícil de ser colocado em prática exatamente pelo fato de que, no geral, nos comportamos exatamente dessa maneira tribal e venal, que para formação de consenso esses grandes grupos costumam ser mais eficientes, que apenas boa vontade não parece ser o suficiente para dobrar o congresso brasileiro (a nova política não pode simplesmente fazer o PMDB desaparecer), etc. Não: as respostas devem impossibilitar a própria existência de Marina - ela não pode, de maneira alguma, ser aquilo que diz. Ela deve ser, na verdade, de algum grupo já existente, igual a eles (ou seja, nós). Se ela se cercou de economistas ortodoxos, então, por transferência de identidade, ela simplesmente não deve ser uma verdadeira defensora de direitos de minorias perseguidas - ainda que seu programa LGBT, mesmo com o recuo, ainda seja mais avançado do que o de Dilma, e ainda que inúmeras tribos indígenas tenham fechado apoio a ela e apontem um governo Dilma como "genocida". Da mesma maneira, se ela veio do PT (e, indo mais longe, se ela é negra, pobre, vinda da Amazônia), ela não pode ser verdadeiramente defensora de uma ortodoxia econômica: deve ser apenas mais um plano petista para conquistar o poder disfarçadamente, sem ninguém perceber.
Não julgo aqui exatamente qualidades (num sentido positivo) de Marina nem faço declaração de voto - só falo do que me marcou em certas reações à sua presença e em como a posição do outsider contém em si, nesse caso, tanto a força de quem vem "para mudar as coisas" quanto a precariedade de ser vista corriqueiramente como traidora constante de todos os lados: algo especialmente preocupante para alguém cujo plano é se aliar aos "melhores" de cada lado sem grandes distinções tribais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário