quarta-feira, 12 de março de 2014

anotações sobre cultura

1. Cultura é aquilo que as pessoas fazem quando não estão fazendo arte.

2. É, porém, impossível, por definição, "fazer" cultura - a cultura é a consequência não subjetiva (no sentido de ser ligada de maneira consequencialista ao sujeito) das ações, o efeito colateral da vivência: a cultura acontece quando ninguém está olhando.

3. O uso da palavra "cultura" com valoração adicionada a ela é uma péssima ideia - "essa pessoa não tem cultura!", "alta cultura", "baixa cultura", etc. Afora a confusão terrível que se faz acerca do que a palavra significa (ou deveria significar), a questão é adicionar adjetivos do eixo positivo/negativo a algo que deve ser, essencialmente, indiferente. Dizer boa ou má cultura é como dizer boa ou má morte - e são os mesmos que defenderão a existência de ambas as coisas.

4. Portanto: se há dois homens (seres humanos) juntos (em contato [e esse contato pode ser imaterial etc]), há cultura. Minto: mesmo um homem sozinho a é/faz. Quando ele respira e olha para a direita em vez de para a esquerda, isso é cultura - quando sorri, também.

5. A cultura é a soma de toda a arte, também, mas é inevitavelmente estéril e não-artística. A cultura é morta porque está viva; a arte é viva porque está morta.

6. Uma metáfora possível: a cultura é o produto do homem assim como o oxigênio é o produto das plantas. O feliz (?) efeito colateral, secundário, de um processo alheio (a vida), objeto de alto valor e consumido insuspeitamente por gente que não poderia estar menos interessada em tudo isso, etc.

7. Exatamente por ser resultado da vida, a cultura é, claro, infinitamente pessoal & universal, ao seu modo, simultaneamente e diferentemente. Os povos não serão aniquilados pela globalização mais do que o homem foi aniquilado pela presença da tribo - a linha que liga um a outro é diferente da linha que liga uns a outros, e ambas deixam cair displicentemente frutos de cores diferentes que adubam os mesmos lugares. O homem que dá boa noite aos filhos com as mãos é cultura; o país que possui uma dança nacional é cultura.

8. A arte, então, é o egoísmo analítico - impossível criar (e viver [e procurar as diferenças entre um e outro]) sem consciência do mundo, mas criar presume um deus cego e solitário esbarrando nos móveis mal posicionados na sala de estar do universo, recusando ajuda. A arte é contra a cultura num sentido menos pueril do que se poderia supor: só pode amar quem vê e pensa.

9. Por isso, nenhuma garantia maior de auto-sabotagem artística do que a ambição da arte "cultural" social exata (emulação da divindade): a arte, na condição de ruptura, não conseguirá jamais "ser a realidade" (seja essa realidade real ou inventada) - não mais do que o homem conseguirá ser um cavalo mais rápido. Os supostos artistas da cultura/sociedade (quase sempre "melhorada") não são nem mesmo sociólogos (pois esses sabem o que fazem): são contadores fraudulentos.

10. Ser culto não implica invariavelmente em mais (livros, quadros, países, línguas, filmes), mas sim em empatia: não a aceitação neutra e tediosa de tudo, mas a dedicação real & amorosa ao mundo.

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