quinta-feira, 2 de outubro de 2014

heresias e pacotes


   Escrevendo o texto abaixo pensei irresistivelmente em como esse tipo de "mistura" costuma soar proibida ou, no mínimo, deselegante. Nosso cérebro parece, por questões evolutivas ou não, pouco preparado para fugir a mentalidades de "tribo" - sempre foi pouco interessante (num sentido de sobrevivência) tender à traição do seu grupo. Costuma ser melhor para quem valoriza a própria vida defender os mesmos ideais do que aqueles à sua volta, da maneira mais ortodoxa possível. Quando algumas pessoas dizem que uma das coisas mais difíceis de se fazer no mundo é mudar de idéia ou de opinião, estão falando a verdade - quase sempre, o ônus social sofrido é maior do que qualquer ganho pessoal alcançável. Por conta disso, acaba-se criando ligações de identidade às vezes estranhas entre idéias, comportamentos e projetos, e, quando confrontados com visões diversas que captam pedaços dessas idéias e pedaços de outras, os membros desse "grupo" sentem-se afrontados. A idéia da heresia vem exatamente daqui - e, hoje, isso se radicaliza de maneiras curiosas. A chave está no encontro da semelhança e diferença e no desconforto gerado: o inimigo maior do republicano americano não é o terrorista islâmico cuja missão expressa é destruir a civilização da qual ele (o republicano) faz parte, mas sim o democrata americano - e vice-versa. O outro é sempre um espelho e, como aponta Freud, o paranóico irremediavelmente projeta nos outros o que ele é.

   Aparentemente não compramos idéias, e sim pacotes fechados de idéias - identidades. Portanto quando uma idéia surge dissociada do pacote completo, a sensação imediata é de estranheza - traição. Fomos ensinados que essa idéia era nossa, e agora lá está ela, desfilando com outros. Acompanhada de idéias estranhas, até mesmo inimigas. É um golpe na realidade, de certa maneira. A reação será tão violenta quanto o sentimento do sujeito.

   O mais comum é uma negação imediata - essa idéia não pode ser dele. É, portanto, mentira - ele não entendeu, ele não sabe do que fala, ele está dando o nome errado à coisa (há muito poder em nomear algo), ele está mentindo, ele é desonesto. Menos comum é o inverso: se a idéia é tão boa, então ele deve ser um de nós e não sabe - independentemente do que ele diz. Mais extremo ainda: se essa idéia é deles, então, na verdade, nunca poderia ter sido nossa - rejeitamo-la eterna e retroativamente.

   O problema nisso é óbvio: desperdiçamos idéias boas por não virem do lugar certo. A identidade prévia do sujeito enunciador ganha mais importância do que o próprio discurso - em termos estruturalistas, nossos cérebros ainda não conseguiram de maneira alguma se adaptarem à "morte do autor". Não que quem fala algo não seja relevante - no mínimo, sabemos com alguma eficácia que alguns sujeitos são mais confiáveis quanto ao que dizem do que outros. Essa insistência constante, porém, e quase fetichista na identidade - que, aliás, parece bem condizente com colocações liberal-conservadoras como "o indivíduo é a menor minoria do mundo" e, ainda assim, é adotada de maneira acrítica muitas vezes pela esquerda - pode levar a um simples "enfraquecimento" das idéias, em relação a um parâmetro de eficiência. Quando o foco recai mais sobre a canonicidade de um argumento - se é nosso, se se encaixa entre os nossos - e menos sobre se, de fato, ele causará o efeito pressuposto, é provável que esses argumentos percam parte do seu poder "real" (não-retórico). Movimentos identitários que se apegam incessantemente ao poder infinito e inquestionável da experiência do sujeito x, pois o sujeito x é ______ me parecem correr risco de sofrerem mais por isso, mas essa é uma discussão para outro texto.


----------------------------------------------------------------------------------------------------------------


    Parece-me que uma das chaves tanto do sucesso quanto do fracasso de Marina Silva vem de questões relacionadas a esse "problema". Quando dizem que Marina consegue ser muita coisa diferente para muita gente diferente, é um pouco disso que se fala. Ainda que a atração da tribo seja forte e radical, há algo de muito poderoso em quem aparentemente quebra as regras e diz "as coisas não precisam mais ser assim" - que é algo que Marina parece querer fazer quando incessantemente declara fazer a nova política. Fugir à situação de embate-refém e procurar alguma síntese entre argumentos que não se deixe abalar pelos dogmas de cada grupo e consiga, enfim, colocar em prática projetos & idéias de lados diferentes, "perdendo" menos do que cada grupo isolado perderia.

   As reações são tão violentas exatamente pelo fato de ser uma postura herética - viola a base do pensamento de grupos e algumas certezas já consagradas. As respostas não se contentarão com apontamentos práticos: que isso é difícil de ser colocado em prática exatamente pelo fato de que, no geral, nos comportamos exatamente dessa maneira tribal e venal, que para formação de consenso esses grandes grupos costumam ser mais eficientes, que apenas boa vontade não parece ser o suficiente para dobrar o congresso brasileiro (a nova política não pode simplesmente fazer o PMDB desaparecer), etc. Não: as respostas devem impossibilitar a própria existência de Marina - ela não pode, de maneira alguma, ser aquilo que diz. Ela deve ser, na verdade, de algum grupo já existente, igual a eles (ou seja, nós). Se ela se cercou de economistas ortodoxos, então, por transferência de identidade, ela simplesmente não deve ser uma verdadeira defensora de direitos de minorias perseguidas - ainda que seu programa LGBT, mesmo com o recuo, ainda seja mais avançado do que o de Dilma, e ainda que inúmeras tribos indígenas tenham fechado apoio a ela e apontem um governo Dilma como "genocida". Da mesma maneira, se ela veio do PT (e, indo mais longe, se ela é negra, pobre, vinda da Amazônia), ela não pode ser verdadeiramente defensora de uma ortodoxia econômica: deve ser apenas mais um plano petista para conquistar o poder disfarçadamente, sem ninguém perceber. 

    Não julgo aqui exatamente qualidades (num sentido positivo) de Marina nem faço declaração de voto - só falo do que me marcou em certas reações à sua presença e em como a posição do outsider contém em si, nesse caso, tanto a força de quem vem "para mudar as coisas" quanto a precariedade de ser vista corriqueiramente como traidora constante de todos os lados: algo especialmente preocupante para alguém cujo plano é se aliar aos "melhores" de cada lado sem grandes distinções tribais.

defesa capitalista do socialismo & outros pensamentos

   A idéia eu vi em algum texto do anarquista David Graeber, mas é corriqueira a ponto de sua afirmação como "verdade subestimada" já soar um pouco contraditória: uma das importâncias "esquecidas" da URSS (e da idéia de socialismo em aplicação em si, a presença do Inimigo/Outro/Alternativa encarnado) é o quanto ela obriga o "outro lado" (classicamente os EUA, mas há uma possível extensão metonímica para o "mundo ocidental") a, como se diz em inglês, "up their game". A ameaçadora sombra do socialismo é um constante lembrete de que, caso vocês (os governantes, o Estado, o Poder) vacilem, há uma outra opção concreta e ansiosa para mostrar o seu valor. De acordo com essa visão, diversos avanços nas legislações trabalhistas e na valorização do trabalho seriam, por exemplo, uma resposta ao suposto paraíso proletário sendo gestado na Rússia: é melhor que os "nossos" trabalhadores percebam um ganho real na sua vida e consumo antes que comecem a cobiçar o (real ou imaginado) padrão de vida socialista. Da mesma maneira, mas com sinal invertido, a liberalização posta em prática - a transmutação retroativa do Ocidente (cuja capital é a América) em "terra da liberdade" é feita em oposição ao totalitarismo soviético. Aqui vocês serão livres, diferente da vida sob um Stalin. Aqui o Estado não pode mandar em você, aqui o indivíduo é o senhor de si mesmo. A metamorfose operada aqui é bastante clara em como o liberalismo passa a ver a si mesmo: abandona-se o discurso de que "pessoas morrem de fome mesmo, isso é normal, os donos das empresas não devem se sentir mal por isso" e chega-se a "o liberalismo enriquece a todos!". Ao menos nisso os randianos continuam honestos. (A esquerda mesmo operará algo semelhante já em 1968, pós desestalinização, e principalmente pós-1991, quando se reestrutura em torno dos direitos humanos e, quando hábil, se desassocia via autocrítica dos excessos soviéticos.)

    (É bom deixar claro que não considero essas operações plenamente conscientes, organizadas, conspiratórias - até mesmo porque essa idéia - uma reação organizada de toda sociedade, planejada minuciosamente - é um conceito essencialmente oposto ao laissez-faire liberalizante que o Ocidente estava tentando encarnar. São cruciais, também, diversos movimentos de esquerda inspirados claramente pelo próprio socialismo - desde as greves no início do século XX em diante, as conquistas trabalhistas nunca podem ser transformadas apenas em dádiva calculista dos Grandes Mestres. Na soma, porém, são reações quase "inconscientes" de uma sociedade, a soma de diversas micro-ações efetuadas por diversos sujeitos que, colocadas lado a lado, se transformam em uma onda que apontará para onde essa sociedade se dirige.  Chamemos, parafraseando, de "Teoria das Sociedades Eficientes" (só as vezes). Soa óbvio, claro, mas sempre faço questão de bater nesse ponto para evitar que me confundam com um teórico da conspiração que imagina uma cabala sinistra decidindo o rumo de planetas com um rolar de dados.)

   Levando isso a uma conclusão cinicamente lógica, pode-se ver nos ganhos obtidos dessa dinâmica um elogio exatamente à competição e ao livre-mercado. A presença de um modelo alternativo implica em uma busca mais séria por eficiência - pois você pode ser derrotado. É o mesmo argumento que se faz em prol da democracia: líderes eleitos buscam aprovação (que, vulgarmente, pode ser equiparada a algum tipo de sucesso na garantia ao menos de uma sensação de qualidade de vida) pois podem ser removidos; ditadores/tiranos/monarcas não precisam de aprovação e, portanto, não tem incentivo para buscarem o melhor para os seus cidadãos (...até a revolução, claro.)

   Soa sacrílego, claro, apontar que um dos efeitos mais benéficos da existência do socialismo real é participar da mesma dinâmica (embora em escala global) capitalista que tentava-se abolir, mas a parte verdadeiramente cínica dessa visão é outra: sacrifica o bem-estar de uma parcela da população, transformando-a em, basicamente, "massa de manobra" para garantir o avanço de outra. Inegáveis que sejam as conquistas da URSS (principalmente a transformação de uma Rússia feudal em superpotência global), são também inegáveis os abusos e massacres e opressões postos em prática durante o regime, e inegável também que, sob basicamente qualquer ótica, o padrão de vida nos países desenvolvidos ocidentais ultrapassou com alguma tranquilidade o padrão soviético. Soa, portanto, um bocado cínico "apoiar" a dinâmica em prática quando da existência soviética apenas por seu papel influente no ocidente e ignorar exatamente os abusos que levam o ocidente a negar esse regime. Seria interessante analisar o efeito contrário - quais as consequências da presença do ocidente nas políticas socialistas - mas disso eu sei pouco: talvez a China de hoje seja o começo de uma resposta.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

rascunhos sobre a realidade

     Já faz alguns anos (quase 20) que o Ballard escreveu que a tarefa do escritor (artista) é inventar a realidade - duvido que ele soubesse o quão certo ele estava, e ao mesmo tempo o quão irrelevante é acertar no alvo.

    A obsessão na boca do coro é "hiperrealismo" (com outros nomes, assim como o diabo) e não por acaso todo e qualquer canal de televisão (e vivemos ainda em um mundo de "canais", e não de coisas livres, ainda bem) possui algum tipo de programa que pode ser descrito como "reality show", a expressão mais perfeita do fetiche cômico com aquilo que é real-ele-mesmo. É curioso como esse real é absolutamente impossível de se descrever de maneira satisfatória - parece ser basicamente algo que é justificável o suficiente em relação a alguns critérios estéticos nebulosos e antiquados. O real é aquilo que poderia acontecer em um romance do século XIX, e o resto é tosco, mal-feito, mal acabado, oco. O real é atraente pois supostamente ele se impõe com mais seriedade e força, se coloca acima daquilo que é apenas acessório/secundário/diabólico (essa maneira hierarquizante de separar os elementos para melhor dormir à noite está por todos os lados, desde a superestrutura marxista até a obsessão neo-punheteira cocainômana por listas - os dez melhores orgasmos que a sua mãe já teve, os quinze maiores fabricantes de gelatina, etc.) e, assim, se legitima apenas exatamente apenas porque acreditamos nele. O reality show é uma alucinação coletiva, um resquício de politesse vitoriana (outra fabricação imaginária deliciosa, um passado magnificamente opulento e virtuoso que é também o labirinto sadomasoquista da tuberculose e das infecções furunculosas observadas de perto por anjos confusos), um franzir o cenho e continuar andando rumo a lugar qualquer enquanto tanto faz. Existem, óbvio, críticas, pois o reality show existe em parte exatamente para ser dissecado, execrado, odiado, cuspido, etc --

     (Um adendo, antes que eu me esqueça: esse é outro fenômeno maravilhoso, a criação de conteúdo basicamente buscando o ódio, a aniquilação erótica de se transformar em um cristo invertido e perseguido, para-raio de chute salivante. A máxima maior é que não existe má publicidade - uma das últimas palavras dos sábios que guardamos. O que anima os posts de facebook de, por exemplo, um Olavo de Carvalho é um desejo macabro de auto-paródia monetizante extremamente próximo do que leva à produção de um filme como "Sharknado", a busca por ser chamado de "pior filme do mundo" e, portanto, colher os louros que tal título merece. Parece-me uma tentativa estranha de domesticar o que as pessoas acreditam ser a dialética, estar sempre um passo a frente do futuro e, assim, afirmar a própria savviness: "Eu sou o dono do mundo, e por isso sei inclusive o que vocês vão dizer em resposta a qualquer coisa que eu diga". Sacrifica-se a própria alma ou qualquer coisa parecida pelo prazer de estar certo - ou errado, nesse caso não há distinção. )

-- porém as críticas são perigosamente pueris, trabalhando por uma oposição tola. "O reality show é falso, claro, mas bom mesmo são esses documentários..." E note-se que não quero aí me filiar ao tedioso blablablá "mas na verdade a percepção...mas na verdade a representação...", só me irrita o fetiche, a sensação de que o real é, por si só, valoroso, vale defendê-lo, vale apontar que ele está lá, ele traz autoridade, traz sobriedade, traz realidade. O real não é sóbrio - o real é jornalistas sendo degolados por um califado, palavra basicamente fora de uso há um milênio, talvez, e o real é um líder mundial que se beneficia de uma pretensa virilidade executada em golpes de judô e domínio sobre ursos, e o real é pessoas que se reunem em grupos racionais para discutir como a tecnologia logo os fará viver para sempre, e o real é um presidente reencarnado em passarinho. Esteticamente, o apreço ao real é extremamente preguiçoso, desleixado, derrotista.

   Digo preguiçoso pois o real deseduca, dessensitiza para quaisquer outras sensibilidades que não as dele - e mesmo estas são, óbvio, transitórias, morrem línguas, cabelos, prédios, etc. Mas os viciados no real não sabem disso e, monoliticamente, tentam mover-se constantemente para manterem-se no mesmo lugar, relativamente ao real. São os seguidores da Rainha de Copas (Carroll: "Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place"), absortos em uma ordem psicótica e, não achando isso o suficiente, elegem-na democraticamente para guiá-los rumo a qualquer abismo particular, ignorando o fato de que, bem, ela já é uma Rainha. Essa seita é triste pois os torna cegos para qualquer outra coisa - quaisquer nomes que queiramos dar ao que está fora do real - ficcional, imaginário, extra-real, alienígena. É uma religião extremamente atéia - filiamo-nos somente àquilo que é (pretensamente) indiferente, exato, esparramado. E negamos, óbvio, a inteligência.

   Há aí uma arrogância humilde extremamente negativa - no sentido de negar possibilidades, resignar-se. O melhor possível - não só de uma perspectiva pragmática, ou hedonista, ou moral, ou biológica, mas também estética, um dos únicos domínios possíveis nos quais a mente pode impor-se de qualquer maneira - é apenas aquilo que está lá, o chão batido de terra, o seco, inverossímil, desmanchável e desestruturado. E a partir daí a mente deve ser infinitamente escrava do real, das "possibilidades", do "razoável" (e o pulo do gato é exatamente esse: o real não é razoável, ele é destrutivo e indiferente e, no limite, demoníaco, pagão, oposto à realidade (essa outra) humana - não confie em quem vê Gaia como deusa amigável e pessoal, que te acaricia e acolhe: ela é, por excelência, a sua morte e a decomposição de tudo que você já viu e sentiu - ele é a cristalização do que não é você, e, sendo você o juiz do que é razoável, dá para entender onde quero chegar...) e, assim, coloniza-se a própria inteligência com vírus mentais do "possível".

    Portanto terminamos com uma sequência interminável de filmes (o exemplo mais paradigmático pois mais cauteloso e conservador pois mais caro e trabalhoso) absolutamente ridículos - pois a realidade é ridícula, e aviões vazios controlados por deuses eletrônicos impessoais podem explodir a nossa casa e a nossa cabeça a qualquer instante - pautados em uma tentativa patética de serem "realistas", ou seja, agora não se pode mais chorar com grandiosidade e sem escorrer catarro, e a luz não pode mais iluminar a atriz como um halo que a torna impressionante, etc, pois, "na vida real" isso não acontece. Podemos apenas reencenar infinitamente os mesmos atos teatrais ruins que já perderam a graça há anos - as paródias globais, as conspirações mesquinhas políticas, etc. Mesmo uma obra sobre espíritos ou monstros tem de ser, "na verdade", sobre as últimas peripécias de Barack Obama.

    A tragédia disso tudo é que, por mais que nos prostremos e humilhemos, o real continua não se importando, e você acaba de se desfazer de tudo que você tinha, tudo que era você, na busca de apreço de um mestre não só cruel mas surdo, cego e entorpecido.

quarta-feira, 12 de março de 2014

anotações sobre cultura

1. Cultura é aquilo que as pessoas fazem quando não estão fazendo arte.

2. É, porém, impossível, por definição, "fazer" cultura - a cultura é a consequência não subjetiva (no sentido de ser ligada de maneira consequencialista ao sujeito) das ações, o efeito colateral da vivência: a cultura acontece quando ninguém está olhando.

3. O uso da palavra "cultura" com valoração adicionada a ela é uma péssima ideia - "essa pessoa não tem cultura!", "alta cultura", "baixa cultura", etc. Afora a confusão terrível que se faz acerca do que a palavra significa (ou deveria significar), a questão é adicionar adjetivos do eixo positivo/negativo a algo que deve ser, essencialmente, indiferente. Dizer boa ou má cultura é como dizer boa ou má morte - e são os mesmos que defenderão a existência de ambas as coisas.

4. Portanto: se há dois homens (seres humanos) juntos (em contato [e esse contato pode ser imaterial etc]), há cultura. Minto: mesmo um homem sozinho a é/faz. Quando ele respira e olha para a direita em vez de para a esquerda, isso é cultura - quando sorri, também.

5. A cultura é a soma de toda a arte, também, mas é inevitavelmente estéril e não-artística. A cultura é morta porque está viva; a arte é viva porque está morta.

6. Uma metáfora possível: a cultura é o produto do homem assim como o oxigênio é o produto das plantas. O feliz (?) efeito colateral, secundário, de um processo alheio (a vida), objeto de alto valor e consumido insuspeitamente por gente que não poderia estar menos interessada em tudo isso, etc.

7. Exatamente por ser resultado da vida, a cultura é, claro, infinitamente pessoal & universal, ao seu modo, simultaneamente e diferentemente. Os povos não serão aniquilados pela globalização mais do que o homem foi aniquilado pela presença da tribo - a linha que liga um a outro é diferente da linha que liga uns a outros, e ambas deixam cair displicentemente frutos de cores diferentes que adubam os mesmos lugares. O homem que dá boa noite aos filhos com as mãos é cultura; o país que possui uma dança nacional é cultura.

8. A arte, então, é o egoísmo analítico - impossível criar (e viver [e procurar as diferenças entre um e outro]) sem consciência do mundo, mas criar presume um deus cego e solitário esbarrando nos móveis mal posicionados na sala de estar do universo, recusando ajuda. A arte é contra a cultura num sentido menos pueril do que se poderia supor: só pode amar quem vê e pensa.

9. Por isso, nenhuma garantia maior de auto-sabotagem artística do que a ambição da arte "cultural" social exata (emulação da divindade): a arte, na condição de ruptura, não conseguirá jamais "ser a realidade" (seja essa realidade real ou inventada) - não mais do que o homem conseguirá ser um cavalo mais rápido. Os supostos artistas da cultura/sociedade (quase sempre "melhorada") não são nem mesmo sociólogos (pois esses sabem o que fazem): são contadores fraudulentos.

10. Ser culto não implica invariavelmente em mais (livros, quadros, países, línguas, filmes), mas sim em empatia: não a aceitação neutra e tediosa de tudo, mas a dedicação real & amorosa ao mundo.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A pureza incontestável da derrota (ou: O caminho deve ser encurralado)

Antes de tudo deixar claro: o objetivo não é a diminuição (ou a crítica covarde que imputa fraqueza àqueles que estão dispostos a serem frágeis para serem fortes) de grupos que lutam. A intenção desse texto não é tripudiar sobre quem foi derrotado e, de alguma maneira, equacionar vitória com correção - pretende-se, alternativamente, apontar a covardia de quem busca só nos fracassos exemplos de como agir.

Há inúmeros exemplos de "vitória" gloriosa na derrota - desde a frase famosa de Darcy Ribeiro ("Meus fracassos são as minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem me venceu") até o pensamento de Walter Benjamin, que não se rendeu às respostas fáceis de um certo "pragmatismo" que era, paradoxalmente, a própria derrota das ideias que alegava avançar, mediante uma aniquilação interna que prefigurava, de maneira algo macabra, a ideia de hegemonia de Gramsci - só que, ao invés de se ver a absorção das instituições burguesas pela classe revolucionária, viu-se (repetidas e repetidas vezes) as instituições engolindo quem as havia engolido, até só sobrar um arremedo confuso de palavras de ordem executando muitas políticas que contrariavam a essência do que o espírito de esquerda representava. Mas estou me perdendo.

O que eu queria dizer é: ainda que existam diversos momentos nos quais os "derrotados" (no campo objetivo/factual/militar/etc) são virtuosos, detentores da "superioridade moral", etc, (seja-lá o que signifiquem todas essas coisas), essas posições não são o único caminho. A esquerda (e, na verdade, qualquer pessoa, sistema de pensamento, pessoa, ideologia, etc) deve ser onívora: devemos procurar lições em todos os lugares possíveis, e não podemos reduzir os nossos professores apenas aos mártires impolutos (postura, aliás, análoga a dos cristãos antes (e também depois) de se tornarem hegemônicos: "somos os perseguidos da história, filhos de um deus torturado, e é na nossa dor e sofrimento que encontramos a nossa vitória inevitável" - maneira de agir que pode ser eficiente dentro de uma narrativa essencialmente metafísica, mas que se torna mais problemática dentro de um sistema um pouquinho mais duramente concreto). Para polemizar: Rosa Luxemburgo foi uma líder admirável e primorosa, mas não podemos ignorar o fato de que a ascensão do fascismo é um sinal claro do fracasso da esquerda na batalha para conquistar corações e mentes em tantos países da Europa.  Para construirmos ideias (e ações) melhores, devemos olhar para todos os lados.

Os nossos mártires devem ser a nossa consciência e o nosso freio, impedindo que cedamos ao cinismo e abandonemos os nossos ideais o suficiente para que nos tornemos algo que, inicialmente, nem consideraríamos defender. Porém, se os nossos "vencedores" (seja por via institucional, seja pela ruptura) trazem consigo, nas suas traições e falhas, o alerta para o que não queremos ser, ambos opostos também devem ser buscados: os erros estratégicos dos derrotados e as conquistas alcançadas pelos vitoriosos.

O que mais frequentemente observo entre as esquerdas derrotadas é a defesa exacerbada da pureza total: é comum assistirmos embasbacados a vertentes separadas da esquerda recusarem ostensivamente uniões em eleições nas quais tinham chance de vencer e, assim, entregarem na bandeja a vitória ao "outro lado". Os exemplos são inúmeros: desde a eleição para a prefeitura de Porto Alegre em 2008, até, em um exemplo mais drástico, a derrota de Gore contra Bush em 2000, quando os votos "de protesto" para o verde Ralph Nader poderiam ter salvo Gore (e mesmo acatando as críticas ao sistema americano e compreendendo que os partidos são menos diferentes do que clamam, se alguém me disser que Bush e Gore eram a mesma coisa, não me responsabilizo pela minha reação). Toda pessoa que já transitou na política estudantil, por exemplo, sabe da tendência muitas vezes constrangedora da esquerda ao sectarismo - o racha parece ser o caminho mais simples, e não a conciliação. Afinal, o que nos separa é realmente tão mais forte do que o que nos une? A dominância de certos conceitos e interpretações (evidenciando outro aspecto problemático, não só da esquerda, mas de quase todo mundo que se dedica com paixão a qualquer atividade que pressupõe embate de ideias: o abraço dogmático de certos textos que, mais uma vez, nos remete direto de volta aos cristãos e tantos outros cultos) é mais importante do que o nosso norte ideário comum?

Ao mesmo tempo, que lições podemos tirar de governos vitoriosos que abraçam a esquerda? Aqui recorro a exemplo óbvio (e dos mais contestados, claro): o recente governo do PT no Brasil, mais especificamente a Era Lula (ainda não tenho diagnóstico muito fechado para Dilma, e sua administração ainda não terminou). Conheço as críticas: não realizou mudanças estruturais; reproduziu muito do que sempre condenou (falo aqui mais da política econômica ortodoxa do que da corrupção, na verdade), fez os mais diversos e feios acordos com forças no mínimo problemáticas, etc, etc. Tudo (em maior ou menor grau) verdade. Mas ficam algumas questões:

1) Esperava-se/queria-se/exigia-se que o PT, chegando ao poder, implantasse exata e exclusivamente apenas aquilo que propunha? A ideia de democracia, feliz e infelizmente, pressupõe (constantes, infinitas) concessões. A contradição que é abafada e aniquilada nas ditaduras é estimulada e (deve ser) abraçada e bem quista nas democracias. O governo do PT, por definição, nunca seria só o governo do PT. (Fica aqui também uma chamada à reflexão sobre a diferença entre Partido e Governo, assunto pra outro dia). Deve-se claramente questionar quais e quantas concessões, mas vejo muitas críticas que parecem ter problema com a ideia de concessão em si. (Caso os críticos sejam contrários ao sistema de democracia representativa de maneira irredutível, certo, aí fica mais fácil de entender. Eu também tenho meus muitos problemas, mas não abraço com paixão nenhuma outra alternativa formulada.)
(Aliás, dentro desse assunto: já ouvi de uma professora da FGV que o sucesso (no sentido de conseguir alcançar metas que foram estabelecidas, basicamente) do governo do PT pode ser associado a, exatamente, uma postura mais democrática. O PT, em comparação com administrações anteriores, ouviu mais gente. Consultou mais grupos e interesses na hora de tomar decisões, e essa "viagem" das ações sendo propostas, essa necessária reflexão, refinou as ideias do governo. Pode-se recorrer tanto ao darwinismo (ou dawkinsnismo) quanto ao hegelianismo vulgar: "ideias mais adaptadas sobrevivem" ou a citação inevitável à (maltratadíssima) dialética. Vou ver se acho a tese dessa professora e posto aqui.)

2) Aos críticos morais (que emulam posições classicamente associadas a uma certa direita, aliás - lembrando que Collor queria "moralizar" e "caçar marajás" -; não é totalmente despropositada a pecha de "udenista" que muitos tentam colar, por exemplo, ao PSOL) que se horrorizaram, decepcionaram, etc com a percepção de que o PT (também) era corrupto: o que fazer? Aceitando sem questionamentos a tese de que o mensalão tenha realmente sido um esquema de compra de votos parlamentares, o que se sugere que o PT tivesse feito em janeiro de 2003? Vejam: não estou fazendo aqui uma defesa da corrupção. Só não sei mesmo o que poderia ter sido feito. A política brasileira, por diversos fatores, em especial uma herança nefastíssima da ditadura, é povoada por partidos cuja função é primordialmente fisiológica e de "composição" - o PMDB é, em certos momentos, incontornável. O PT, para conseguir aprovar leis e projetos e, enfim, governar, precisava conseguir uma maioria parlamentar. Não a tinha em sua bancada. Não a tinha junto de aliados totalmente orgânicos (e é bom lembrar que partidos que, teoricamente, mantinham afinidade ideológica razoável com o PT, como PV e PPS (ao menos no programa...), abandonaram o governo depois de não muito tempo). Para conseguir uma maioria funcional, o PT precisava ou atrair o PSDB (cenário bastante improvável, depois da bipolarização partidária alavancada por ambos) ou compor com diversos grupos que, de maneira mais ou menos aberta, votariam junto com o governo mediante a concessão de benefícios - sejam eles cargos, dinheiro ou o que for. (Pode-se imaginar um mundo no qual os parlamentares votariam a favor de projetos de acordo com o seu mérito, independente de alianças ou conchavos. Esse não é o mundo que habitamos). A outra maneira de agir seria, colocando de maneira um tanto grosseira, não fazer nada. Admitir logo de cara que não tinham a maioria necessária, que não queriam se perverter com alianças venais, e conduzirem em banho-maria um governo ostensivamente inativo. Qual dessas maneiras de agir é uma "traição" maior aos ideais do PT, da esquerda, etc?

3) Finalmente: o que fazer com as conquistas do PT? Vejam: eu não sou apologista explícito do partido. Entendo que foi, em grande grau, decepcionante e desgastante esse período no qual estão no poder. Mas há alguns fatos incontornáveis, no fim das contas. Uma esmagadora diminuição da pobreza (e miséria) e, não tão comentada, da desigualdade social. A consolidação aparente da estabilidade econômica do país (quem acha que isso é pouco importante ou "coisa de neoliberal" parece esquecer que a inflação come o salário tanto quanto o arrocho o segura). Uma revolução no ensino superior, ainda mais comparada à inação do governo anterior (falo tanto do PROUNI quanto da retomada da expansão das faculdades públicas). No plano simbólico: a consagração de uma narrativa algo inédita no país, a da vitória de um representante do "lado de lá", em contraste com a aparente sucessão ininterrupta de guias e messias e patrões sempre associados aos grupos "que mandam" (numa sociedade onde o grupo dos mandados é grotescamente maior, numericamente). É pouco, perto do que queremos/esperávamos? É. É muito, em contraste com o que costuma ser feito? É. Mas, antes de tudo, são conquistas basicamente factuais. Existem inúmeras ressalvas a cada uma delas (alega-se, por exemplo, que esse período de ganhos foi alimentado basicamente pela bonança econômica mundial e pelo boom das commodities estimulado pela China - há verdade aí, mas, novamente, não é a única explicação), mas o núcleo duro dessas conquistas permanece, ao meu ver, válido. Como uma esquerda propositiva deve lidar com essas vitórias? Entendo a necessidade de começar a análise desses ganhos sempre com a lembrança das sujeiras e retrocessos que as cercaram, mas, por favor, reconheçamos que elas existem. Considerando que a esquerda é constantemente preocupada com a redução de desigualdades e com a melhoria da condição de vida do homem, me parece que, para desqualificar totalmente essas vitórias, é necessário aderir a um precarismo do "quanto pior, melhor" que, aos meus olhos, é abjeto e desumano.

Vejam: não quero que as esquerdas mais radicais "se tornem" o PT (ou qualquer outro partido vencedor que "se vendeu"). Elas acertam em diversos pontos nos quais o PT fracassou, e cumprem função importante. Só acho que é necessário analisar de maneira um pouco menos passional (ou maniqueísta) o legado que os "nossos" vitoriosos deixaram. O resultado costuma ser positivo (lembremos sempre que os governos que mais se recusavam a ver mérito em ideias "hereges" são exatamente os maiores traidores do nosso ideário; não há exemplo maior do que o stalinismo). O programa político da esquerda radical não é hegemônico por diversos fatores - influi, claro, o poder midiático e econômico associado às ideias mais "moderadas", mas, mais uma vez, não é a única explicação. Pode-se aprender muito, inclusive no intuito de repensar e reformar esses programas, com governos que, duplamente, conquistaram o eleitorado que deseja-se atingir e fizeram bem a esse eleitorado (de maneira algo elementar, melhorando a sua qualidade de vida, tirando-o da miséria e da fome, etc). Como incorporar as ações bem-sucedidas desses governos sem capitular tanto e sem se prostituir tanto? O desafio é esse, e só pode ser vencido se for reconhecido. Para irmos além das conquistas "básicas", é preciso, no mínimo, perceber que elas existem.

Fui extremamente prolixo (outro vício óbvio e velho da esquerda), mas a ideia que eu tentava apontar era: o abraço exclusivo aos ícones derrotados e puros é cômodo e um tanto fácil. Mais difícil é meter a mão na massa e procurar conselhos nos mais diversos lamaçais. É dever, porém, dessa esquerda que se diz defensora da pluralidade (que rejeita o pensamento único que tantas vezes nos derrotou e diminuiu) agir positiva e exemplarmente em relação ao contraditório. A nossa pureza utópica vale muito menos do que a busca incessante (e cansativa, e dolorida) por ideias melhores e, sim, mais funcionais. A vitória na derrota é uma narrativa a ser abraçada, por seu valor simbólico e desafiador da hegemonia ditatorial da falsa meritocracia absoluta. Mas as vitórias na vitória - por mais desanimadora que essa vitória seja - também são úteis e não podem ser abandonadas.