quinta-feira, 2 de outubro de 2014

heresias e pacotes


   Escrevendo o texto abaixo pensei irresistivelmente em como esse tipo de "mistura" costuma soar proibida ou, no mínimo, deselegante. Nosso cérebro parece, por questões evolutivas ou não, pouco preparado para fugir a mentalidades de "tribo" - sempre foi pouco interessante (num sentido de sobrevivência) tender à traição do seu grupo. Costuma ser melhor para quem valoriza a própria vida defender os mesmos ideais do que aqueles à sua volta, da maneira mais ortodoxa possível. Quando algumas pessoas dizem que uma das coisas mais difíceis de se fazer no mundo é mudar de idéia ou de opinião, estão falando a verdade - quase sempre, o ônus social sofrido é maior do que qualquer ganho pessoal alcançável. Por conta disso, acaba-se criando ligações de identidade às vezes estranhas entre idéias, comportamentos e projetos, e, quando confrontados com visões diversas que captam pedaços dessas idéias e pedaços de outras, os membros desse "grupo" sentem-se afrontados. A idéia da heresia vem exatamente daqui - e, hoje, isso se radicaliza de maneiras curiosas. A chave está no encontro da semelhança e diferença e no desconforto gerado: o inimigo maior do republicano americano não é o terrorista islâmico cuja missão expressa é destruir a civilização da qual ele (o republicano) faz parte, mas sim o democrata americano - e vice-versa. O outro é sempre um espelho e, como aponta Freud, o paranóico irremediavelmente projeta nos outros o que ele é.

   Aparentemente não compramos idéias, e sim pacotes fechados de idéias - identidades. Portanto quando uma idéia surge dissociada do pacote completo, a sensação imediata é de estranheza - traição. Fomos ensinados que essa idéia era nossa, e agora lá está ela, desfilando com outros. Acompanhada de idéias estranhas, até mesmo inimigas. É um golpe na realidade, de certa maneira. A reação será tão violenta quanto o sentimento do sujeito.

   O mais comum é uma negação imediata - essa idéia não pode ser dele. É, portanto, mentira - ele não entendeu, ele não sabe do que fala, ele está dando o nome errado à coisa (há muito poder em nomear algo), ele está mentindo, ele é desonesto. Menos comum é o inverso: se a idéia é tão boa, então ele deve ser um de nós e não sabe - independentemente do que ele diz. Mais extremo ainda: se essa idéia é deles, então, na verdade, nunca poderia ter sido nossa - rejeitamo-la eterna e retroativamente.

   O problema nisso é óbvio: desperdiçamos idéias boas por não virem do lugar certo. A identidade prévia do sujeito enunciador ganha mais importância do que o próprio discurso - em termos estruturalistas, nossos cérebros ainda não conseguiram de maneira alguma se adaptarem à "morte do autor". Não que quem fala algo não seja relevante - no mínimo, sabemos com alguma eficácia que alguns sujeitos são mais confiáveis quanto ao que dizem do que outros. Essa insistência constante, porém, e quase fetichista na identidade - que, aliás, parece bem condizente com colocações liberal-conservadoras como "o indivíduo é a menor minoria do mundo" e, ainda assim, é adotada de maneira acrítica muitas vezes pela esquerda - pode levar a um simples "enfraquecimento" das idéias, em relação a um parâmetro de eficiência. Quando o foco recai mais sobre a canonicidade de um argumento - se é nosso, se se encaixa entre os nossos - e menos sobre se, de fato, ele causará o efeito pressuposto, é provável que esses argumentos percam parte do seu poder "real" (não-retórico). Movimentos identitários que se apegam incessantemente ao poder infinito e inquestionável da experiência do sujeito x, pois o sujeito x é ______ me parecem correr risco de sofrerem mais por isso, mas essa é uma discussão para outro texto.


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    Parece-me que uma das chaves tanto do sucesso quanto do fracasso de Marina Silva vem de questões relacionadas a esse "problema". Quando dizem que Marina consegue ser muita coisa diferente para muita gente diferente, é um pouco disso que se fala. Ainda que a atração da tribo seja forte e radical, há algo de muito poderoso em quem aparentemente quebra as regras e diz "as coisas não precisam mais ser assim" - que é algo que Marina parece querer fazer quando incessantemente declara fazer a nova política. Fugir à situação de embate-refém e procurar alguma síntese entre argumentos que não se deixe abalar pelos dogmas de cada grupo e consiga, enfim, colocar em prática projetos & idéias de lados diferentes, "perdendo" menos do que cada grupo isolado perderia.

   As reações são tão violentas exatamente pelo fato de ser uma postura herética - viola a base do pensamento de grupos e algumas certezas já consagradas. As respostas não se contentarão com apontamentos práticos: que isso é difícil de ser colocado em prática exatamente pelo fato de que, no geral, nos comportamos exatamente dessa maneira tribal e venal, que para formação de consenso esses grandes grupos costumam ser mais eficientes, que apenas boa vontade não parece ser o suficiente para dobrar o congresso brasileiro (a nova política não pode simplesmente fazer o PMDB desaparecer), etc. Não: as respostas devem impossibilitar a própria existência de Marina - ela não pode, de maneira alguma, ser aquilo que diz. Ela deve ser, na verdade, de algum grupo já existente, igual a eles (ou seja, nós). Se ela se cercou de economistas ortodoxos, então, por transferência de identidade, ela simplesmente não deve ser uma verdadeira defensora de direitos de minorias perseguidas - ainda que seu programa LGBT, mesmo com o recuo, ainda seja mais avançado do que o de Dilma, e ainda que inúmeras tribos indígenas tenham fechado apoio a ela e apontem um governo Dilma como "genocida". Da mesma maneira, se ela veio do PT (e, indo mais longe, se ela é negra, pobre, vinda da Amazônia), ela não pode ser verdadeiramente defensora de uma ortodoxia econômica: deve ser apenas mais um plano petista para conquistar o poder disfarçadamente, sem ninguém perceber. 

    Não julgo aqui exatamente qualidades (num sentido positivo) de Marina nem faço declaração de voto - só falo do que me marcou em certas reações à sua presença e em como a posição do outsider contém em si, nesse caso, tanto a força de quem vem "para mudar as coisas" quanto a precariedade de ser vista corriqueiramente como traidora constante de todos os lados: algo especialmente preocupante para alguém cujo plano é se aliar aos "melhores" de cada lado sem grandes distinções tribais.

defesa capitalista do socialismo & outros pensamentos

   A idéia eu vi em algum texto do anarquista David Graeber, mas é corriqueira a ponto de sua afirmação como "verdade subestimada" já soar um pouco contraditória: uma das importâncias "esquecidas" da URSS (e da idéia de socialismo em aplicação em si, a presença do Inimigo/Outro/Alternativa encarnado) é o quanto ela obriga o "outro lado" (classicamente os EUA, mas há uma possível extensão metonímica para o "mundo ocidental") a, como se diz em inglês, "up their game". A ameaçadora sombra do socialismo é um constante lembrete de que, caso vocês (os governantes, o Estado, o Poder) vacilem, há uma outra opção concreta e ansiosa para mostrar o seu valor. De acordo com essa visão, diversos avanços nas legislações trabalhistas e na valorização do trabalho seriam, por exemplo, uma resposta ao suposto paraíso proletário sendo gestado na Rússia: é melhor que os "nossos" trabalhadores percebam um ganho real na sua vida e consumo antes que comecem a cobiçar o (real ou imaginado) padrão de vida socialista. Da mesma maneira, mas com sinal invertido, a liberalização posta em prática - a transmutação retroativa do Ocidente (cuja capital é a América) em "terra da liberdade" é feita em oposição ao totalitarismo soviético. Aqui vocês serão livres, diferente da vida sob um Stalin. Aqui o Estado não pode mandar em você, aqui o indivíduo é o senhor de si mesmo. A metamorfose operada aqui é bastante clara em como o liberalismo passa a ver a si mesmo: abandona-se o discurso de que "pessoas morrem de fome mesmo, isso é normal, os donos das empresas não devem se sentir mal por isso" e chega-se a "o liberalismo enriquece a todos!". Ao menos nisso os randianos continuam honestos. (A esquerda mesmo operará algo semelhante já em 1968, pós desestalinização, e principalmente pós-1991, quando se reestrutura em torno dos direitos humanos e, quando hábil, se desassocia via autocrítica dos excessos soviéticos.)

    (É bom deixar claro que não considero essas operações plenamente conscientes, organizadas, conspiratórias - até mesmo porque essa idéia - uma reação organizada de toda sociedade, planejada minuciosamente - é um conceito essencialmente oposto ao laissez-faire liberalizante que o Ocidente estava tentando encarnar. São cruciais, também, diversos movimentos de esquerda inspirados claramente pelo próprio socialismo - desde as greves no início do século XX em diante, as conquistas trabalhistas nunca podem ser transformadas apenas em dádiva calculista dos Grandes Mestres. Na soma, porém, são reações quase "inconscientes" de uma sociedade, a soma de diversas micro-ações efetuadas por diversos sujeitos que, colocadas lado a lado, se transformam em uma onda que apontará para onde essa sociedade se dirige.  Chamemos, parafraseando, de "Teoria das Sociedades Eficientes" (só as vezes). Soa óbvio, claro, mas sempre faço questão de bater nesse ponto para evitar que me confundam com um teórico da conspiração que imagina uma cabala sinistra decidindo o rumo de planetas com um rolar de dados.)

   Levando isso a uma conclusão cinicamente lógica, pode-se ver nos ganhos obtidos dessa dinâmica um elogio exatamente à competição e ao livre-mercado. A presença de um modelo alternativo implica em uma busca mais séria por eficiência - pois você pode ser derrotado. É o mesmo argumento que se faz em prol da democracia: líderes eleitos buscam aprovação (que, vulgarmente, pode ser equiparada a algum tipo de sucesso na garantia ao menos de uma sensação de qualidade de vida) pois podem ser removidos; ditadores/tiranos/monarcas não precisam de aprovação e, portanto, não tem incentivo para buscarem o melhor para os seus cidadãos (...até a revolução, claro.)

   Soa sacrílego, claro, apontar que um dos efeitos mais benéficos da existência do socialismo real é participar da mesma dinâmica (embora em escala global) capitalista que tentava-se abolir, mas a parte verdadeiramente cínica dessa visão é outra: sacrifica o bem-estar de uma parcela da população, transformando-a em, basicamente, "massa de manobra" para garantir o avanço de outra. Inegáveis que sejam as conquistas da URSS (principalmente a transformação de uma Rússia feudal em superpotência global), são também inegáveis os abusos e massacres e opressões postos em prática durante o regime, e inegável também que, sob basicamente qualquer ótica, o padrão de vida nos países desenvolvidos ocidentais ultrapassou com alguma tranquilidade o padrão soviético. Soa, portanto, um bocado cínico "apoiar" a dinâmica em prática quando da existência soviética apenas por seu papel influente no ocidente e ignorar exatamente os abusos que levam o ocidente a negar esse regime. Seria interessante analisar o efeito contrário - quais as consequências da presença do ocidente nas políticas socialistas - mas disso eu sei pouco: talvez a China de hoje seja o começo de uma resposta.