Já faz alguns anos (quase 20) que o Ballard escreveu que a tarefa do escritor (artista) é inventar a realidade - duvido que ele soubesse o quão certo ele estava, e ao mesmo tempo o quão irrelevante é acertar no alvo.
A obsessão na boca do coro é "hiperrealismo" (com outros nomes, assim como o diabo) e não por acaso todo e qualquer canal de televisão (e vivemos ainda em um mundo de "canais", e não de coisas livres, ainda bem) possui algum tipo de programa que pode ser descrito como "reality show", a expressão mais perfeita do fetiche cômico com aquilo que é real-ele-mesmo. É curioso como esse real é absolutamente impossível de se descrever de maneira satisfatória - parece ser basicamente algo que é justificável o suficiente em relação a alguns critérios estéticos nebulosos e antiquados. O real é aquilo que poderia acontecer em um romance do século XIX, e o resto é tosco, mal-feito, mal acabado, oco. O real é atraente pois supostamente ele se impõe com mais seriedade e força, se coloca acima daquilo que é apenas acessório/secundário/diabólico (essa maneira hierarquizante de separar os elementos para melhor dormir à noite está por todos os lados, desde a superestrutura marxista até a obsessão neo-punheteira cocainômana por listas - os dez melhores orgasmos que a sua mãe já teve, os quinze maiores fabricantes de gelatina, etc.) e, assim, se legitima apenas exatamente apenas porque acreditamos nele. O reality show é uma alucinação coletiva, um resquício de politesse vitoriana (outra fabricação imaginária deliciosa, um passado magnificamente opulento e virtuoso que é também o labirinto sadomasoquista da tuberculose e das infecções furunculosas observadas de perto por anjos confusos), um franzir o cenho e continuar andando rumo a lugar qualquer enquanto tanto faz. Existem, óbvio, críticas, pois o reality show existe em parte exatamente para ser dissecado, execrado, odiado, cuspido, etc --
(Um adendo, antes que eu me esqueça: esse é outro fenômeno maravilhoso, a criação de conteúdo basicamente buscando o ódio, a aniquilação erótica de se transformar em um cristo invertido e perseguido, para-raio de chute salivante. A máxima maior é que não existe má publicidade - uma das últimas palavras dos sábios que guardamos. O que anima os posts de facebook de, por exemplo, um Olavo de Carvalho é um desejo macabro de auto-paródia monetizante extremamente próximo do que leva à produção de um filme como "Sharknado", a busca por ser chamado de "pior filme do mundo" e, portanto, colher os louros que tal título merece. Parece-me uma tentativa estranha de domesticar o que as pessoas acreditam ser a dialética, estar sempre um passo a frente do futuro e, assim, afirmar a própria savviness: "Eu sou o dono do mundo, e por isso sei inclusive o que vocês vão dizer em resposta a qualquer coisa que eu diga". Sacrifica-se a própria alma ou qualquer coisa parecida pelo prazer de estar certo - ou errado, nesse caso não há distinção. )
-- porém as críticas são perigosamente pueris, trabalhando por uma oposição tola. "O reality show é falso, claro, mas bom mesmo são esses documentários..." E note-se que não quero aí me filiar ao tedioso blablablá "mas na verdade a percepção...mas na verdade a representação...", só me irrita o fetiche, a sensação de que o real é, por si só, valoroso, vale defendê-lo, vale apontar que ele está lá, ele traz autoridade, traz sobriedade, traz realidade. O real não é sóbrio - o real é jornalistas sendo degolados por um califado, palavra basicamente fora de uso há um milênio, talvez, e o real é um líder mundial que se beneficia de uma pretensa virilidade executada em golpes de judô e domínio sobre ursos, e o real é pessoas que se reunem em grupos racionais para discutir como a tecnologia logo os fará viver para sempre, e o real é um presidente reencarnado em passarinho. Esteticamente, o apreço ao real é extremamente preguiçoso, desleixado, derrotista.
Digo preguiçoso pois o real deseduca, dessensitiza para quaisquer outras sensibilidades que não as dele - e mesmo estas são, óbvio, transitórias, morrem línguas, cabelos, prédios, etc. Mas os viciados no real não sabem disso e, monoliticamente, tentam mover-se constantemente para manterem-se no mesmo lugar, relativamente ao real. São os seguidores da Rainha de Copas (Carroll: "Now, here, you see, it takes all the running you can do, to keep in the same place"), absortos em uma ordem psicótica e, não achando isso o suficiente, elegem-na democraticamente para guiá-los rumo a qualquer abismo particular, ignorando o fato de que, bem, ela já é uma Rainha. Essa seita é triste pois os torna cegos para qualquer outra coisa - quaisquer nomes que queiramos dar ao que está fora do real - ficcional, imaginário, extra-real, alienígena. É uma religião extremamente atéia - filiamo-nos somente àquilo que é (pretensamente) indiferente, exato, esparramado. E negamos, óbvio, a inteligência.
Há aí uma arrogância humilde extremamente negativa - no sentido de negar possibilidades, resignar-se. O melhor possível - não só de uma perspectiva pragmática, ou hedonista, ou moral, ou biológica, mas também estética, um dos únicos domínios possíveis nos quais a mente pode impor-se de qualquer maneira - é apenas aquilo que está lá, o chão batido de terra, o seco, inverossímil, desmanchável e desestruturado. E a partir daí a mente deve ser infinitamente escrava do real, das "possibilidades", do "razoável" (e o pulo do gato é exatamente esse: o real não é razoável, ele é destrutivo e indiferente e, no limite, demoníaco, pagão, oposto à realidade (essa outra) humana - não confie em quem vê Gaia como deusa amigável e pessoal, que te acaricia e acolhe: ela é, por excelência, a sua morte e a decomposição de tudo que você já viu e sentiu - ele é a cristalização do que não é você, e, sendo você o juiz do que é razoável, dá para entender onde quero chegar...) e, assim, coloniza-se a própria inteligência com vírus mentais do "possível".
Portanto terminamos com uma sequência interminável de filmes (o exemplo mais paradigmático pois mais cauteloso e conservador pois mais caro e trabalhoso) absolutamente ridículos - pois a realidade é ridícula, e aviões vazios controlados por deuses eletrônicos impessoais podem explodir a nossa casa e a nossa cabeça a qualquer instante - pautados em uma tentativa patética de serem "realistas", ou seja, agora não se pode mais chorar com grandiosidade e sem escorrer catarro, e a luz não pode mais iluminar a atriz como um halo que a torna impressionante, etc, pois, "na vida real" isso não acontece. Podemos apenas reencenar infinitamente os mesmos atos teatrais ruins que já perderam a graça há anos - as paródias globais, as conspirações mesquinhas políticas, etc. Mesmo uma obra sobre espíritos ou monstros tem de ser, "na verdade", sobre as últimas peripécias de Barack Obama.
A tragédia disso tudo é que, por mais que nos prostremos e humilhemos, o real continua não se importando, e você acaba de se desfazer de tudo que você tinha, tudo que era você, na busca de apreço de um mestre não só cruel mas surdo, cego e entorpecido.