terça-feira, 10 de setembro de 2013

A pureza incontestável da derrota (ou: O caminho deve ser encurralado)

Antes de tudo deixar claro: o objetivo não é a diminuição (ou a crítica covarde que imputa fraqueza àqueles que estão dispostos a serem frágeis para serem fortes) de grupos que lutam. A intenção desse texto não é tripudiar sobre quem foi derrotado e, de alguma maneira, equacionar vitória com correção - pretende-se, alternativamente, apontar a covardia de quem busca só nos fracassos exemplos de como agir.

Há inúmeros exemplos de "vitória" gloriosa na derrota - desde a frase famosa de Darcy Ribeiro ("Meus fracassos são as minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem me venceu") até o pensamento de Walter Benjamin, que não se rendeu às respostas fáceis de um certo "pragmatismo" que era, paradoxalmente, a própria derrota das ideias que alegava avançar, mediante uma aniquilação interna que prefigurava, de maneira algo macabra, a ideia de hegemonia de Gramsci - só que, ao invés de se ver a absorção das instituições burguesas pela classe revolucionária, viu-se (repetidas e repetidas vezes) as instituições engolindo quem as havia engolido, até só sobrar um arremedo confuso de palavras de ordem executando muitas políticas que contrariavam a essência do que o espírito de esquerda representava. Mas estou me perdendo.

O que eu queria dizer é: ainda que existam diversos momentos nos quais os "derrotados" (no campo objetivo/factual/militar/etc) são virtuosos, detentores da "superioridade moral", etc, (seja-lá o que signifiquem todas essas coisas), essas posições não são o único caminho. A esquerda (e, na verdade, qualquer pessoa, sistema de pensamento, pessoa, ideologia, etc) deve ser onívora: devemos procurar lições em todos os lugares possíveis, e não podemos reduzir os nossos professores apenas aos mártires impolutos (postura, aliás, análoga a dos cristãos antes (e também depois) de se tornarem hegemônicos: "somos os perseguidos da história, filhos de um deus torturado, e é na nossa dor e sofrimento que encontramos a nossa vitória inevitável" - maneira de agir que pode ser eficiente dentro de uma narrativa essencialmente metafísica, mas que se torna mais problemática dentro de um sistema um pouquinho mais duramente concreto). Para polemizar: Rosa Luxemburgo foi uma líder admirável e primorosa, mas não podemos ignorar o fato de que a ascensão do fascismo é um sinal claro do fracasso da esquerda na batalha para conquistar corações e mentes em tantos países da Europa.  Para construirmos ideias (e ações) melhores, devemos olhar para todos os lados.

Os nossos mártires devem ser a nossa consciência e o nosso freio, impedindo que cedamos ao cinismo e abandonemos os nossos ideais o suficiente para que nos tornemos algo que, inicialmente, nem consideraríamos defender. Porém, se os nossos "vencedores" (seja por via institucional, seja pela ruptura) trazem consigo, nas suas traições e falhas, o alerta para o que não queremos ser, ambos opostos também devem ser buscados: os erros estratégicos dos derrotados e as conquistas alcançadas pelos vitoriosos.

O que mais frequentemente observo entre as esquerdas derrotadas é a defesa exacerbada da pureza total: é comum assistirmos embasbacados a vertentes separadas da esquerda recusarem ostensivamente uniões em eleições nas quais tinham chance de vencer e, assim, entregarem na bandeja a vitória ao "outro lado". Os exemplos são inúmeros: desde a eleição para a prefeitura de Porto Alegre em 2008, até, em um exemplo mais drástico, a derrota de Gore contra Bush em 2000, quando os votos "de protesto" para o verde Ralph Nader poderiam ter salvo Gore (e mesmo acatando as críticas ao sistema americano e compreendendo que os partidos são menos diferentes do que clamam, se alguém me disser que Bush e Gore eram a mesma coisa, não me responsabilizo pela minha reação). Toda pessoa que já transitou na política estudantil, por exemplo, sabe da tendência muitas vezes constrangedora da esquerda ao sectarismo - o racha parece ser o caminho mais simples, e não a conciliação. Afinal, o que nos separa é realmente tão mais forte do que o que nos une? A dominância de certos conceitos e interpretações (evidenciando outro aspecto problemático, não só da esquerda, mas de quase todo mundo que se dedica com paixão a qualquer atividade que pressupõe embate de ideias: o abraço dogmático de certos textos que, mais uma vez, nos remete direto de volta aos cristãos e tantos outros cultos) é mais importante do que o nosso norte ideário comum?

Ao mesmo tempo, que lições podemos tirar de governos vitoriosos que abraçam a esquerda? Aqui recorro a exemplo óbvio (e dos mais contestados, claro): o recente governo do PT no Brasil, mais especificamente a Era Lula (ainda não tenho diagnóstico muito fechado para Dilma, e sua administração ainda não terminou). Conheço as críticas: não realizou mudanças estruturais; reproduziu muito do que sempre condenou (falo aqui mais da política econômica ortodoxa do que da corrupção, na verdade), fez os mais diversos e feios acordos com forças no mínimo problemáticas, etc, etc. Tudo (em maior ou menor grau) verdade. Mas ficam algumas questões:

1) Esperava-se/queria-se/exigia-se que o PT, chegando ao poder, implantasse exata e exclusivamente apenas aquilo que propunha? A ideia de democracia, feliz e infelizmente, pressupõe (constantes, infinitas) concessões. A contradição que é abafada e aniquilada nas ditaduras é estimulada e (deve ser) abraçada e bem quista nas democracias. O governo do PT, por definição, nunca seria só o governo do PT. (Fica aqui também uma chamada à reflexão sobre a diferença entre Partido e Governo, assunto pra outro dia). Deve-se claramente questionar quais e quantas concessões, mas vejo muitas críticas que parecem ter problema com a ideia de concessão em si. (Caso os críticos sejam contrários ao sistema de democracia representativa de maneira irredutível, certo, aí fica mais fácil de entender. Eu também tenho meus muitos problemas, mas não abraço com paixão nenhuma outra alternativa formulada.)
(Aliás, dentro desse assunto: já ouvi de uma professora da FGV que o sucesso (no sentido de conseguir alcançar metas que foram estabelecidas, basicamente) do governo do PT pode ser associado a, exatamente, uma postura mais democrática. O PT, em comparação com administrações anteriores, ouviu mais gente. Consultou mais grupos e interesses na hora de tomar decisões, e essa "viagem" das ações sendo propostas, essa necessária reflexão, refinou as ideias do governo. Pode-se recorrer tanto ao darwinismo (ou dawkinsnismo) quanto ao hegelianismo vulgar: "ideias mais adaptadas sobrevivem" ou a citação inevitável à (maltratadíssima) dialética. Vou ver se acho a tese dessa professora e posto aqui.)

2) Aos críticos morais (que emulam posições classicamente associadas a uma certa direita, aliás - lembrando que Collor queria "moralizar" e "caçar marajás" -; não é totalmente despropositada a pecha de "udenista" que muitos tentam colar, por exemplo, ao PSOL) que se horrorizaram, decepcionaram, etc com a percepção de que o PT (também) era corrupto: o que fazer? Aceitando sem questionamentos a tese de que o mensalão tenha realmente sido um esquema de compra de votos parlamentares, o que se sugere que o PT tivesse feito em janeiro de 2003? Vejam: não estou fazendo aqui uma defesa da corrupção. Só não sei mesmo o que poderia ter sido feito. A política brasileira, por diversos fatores, em especial uma herança nefastíssima da ditadura, é povoada por partidos cuja função é primordialmente fisiológica e de "composição" - o PMDB é, em certos momentos, incontornável. O PT, para conseguir aprovar leis e projetos e, enfim, governar, precisava conseguir uma maioria parlamentar. Não a tinha em sua bancada. Não a tinha junto de aliados totalmente orgânicos (e é bom lembrar que partidos que, teoricamente, mantinham afinidade ideológica razoável com o PT, como PV e PPS (ao menos no programa...), abandonaram o governo depois de não muito tempo). Para conseguir uma maioria funcional, o PT precisava ou atrair o PSDB (cenário bastante improvável, depois da bipolarização partidária alavancada por ambos) ou compor com diversos grupos que, de maneira mais ou menos aberta, votariam junto com o governo mediante a concessão de benefícios - sejam eles cargos, dinheiro ou o que for. (Pode-se imaginar um mundo no qual os parlamentares votariam a favor de projetos de acordo com o seu mérito, independente de alianças ou conchavos. Esse não é o mundo que habitamos). A outra maneira de agir seria, colocando de maneira um tanto grosseira, não fazer nada. Admitir logo de cara que não tinham a maioria necessária, que não queriam se perverter com alianças venais, e conduzirem em banho-maria um governo ostensivamente inativo. Qual dessas maneiras de agir é uma "traição" maior aos ideais do PT, da esquerda, etc?

3) Finalmente: o que fazer com as conquistas do PT? Vejam: eu não sou apologista explícito do partido. Entendo que foi, em grande grau, decepcionante e desgastante esse período no qual estão no poder. Mas há alguns fatos incontornáveis, no fim das contas. Uma esmagadora diminuição da pobreza (e miséria) e, não tão comentada, da desigualdade social. A consolidação aparente da estabilidade econômica do país (quem acha que isso é pouco importante ou "coisa de neoliberal" parece esquecer que a inflação come o salário tanto quanto o arrocho o segura). Uma revolução no ensino superior, ainda mais comparada à inação do governo anterior (falo tanto do PROUNI quanto da retomada da expansão das faculdades públicas). No plano simbólico: a consagração de uma narrativa algo inédita no país, a da vitória de um representante do "lado de lá", em contraste com a aparente sucessão ininterrupta de guias e messias e patrões sempre associados aos grupos "que mandam" (numa sociedade onde o grupo dos mandados é grotescamente maior, numericamente). É pouco, perto do que queremos/esperávamos? É. É muito, em contraste com o que costuma ser feito? É. Mas, antes de tudo, são conquistas basicamente factuais. Existem inúmeras ressalvas a cada uma delas (alega-se, por exemplo, que esse período de ganhos foi alimentado basicamente pela bonança econômica mundial e pelo boom das commodities estimulado pela China - há verdade aí, mas, novamente, não é a única explicação), mas o núcleo duro dessas conquistas permanece, ao meu ver, válido. Como uma esquerda propositiva deve lidar com essas vitórias? Entendo a necessidade de começar a análise desses ganhos sempre com a lembrança das sujeiras e retrocessos que as cercaram, mas, por favor, reconheçamos que elas existem. Considerando que a esquerda é constantemente preocupada com a redução de desigualdades e com a melhoria da condição de vida do homem, me parece que, para desqualificar totalmente essas vitórias, é necessário aderir a um precarismo do "quanto pior, melhor" que, aos meus olhos, é abjeto e desumano.

Vejam: não quero que as esquerdas mais radicais "se tornem" o PT (ou qualquer outro partido vencedor que "se vendeu"). Elas acertam em diversos pontos nos quais o PT fracassou, e cumprem função importante. Só acho que é necessário analisar de maneira um pouco menos passional (ou maniqueísta) o legado que os "nossos" vitoriosos deixaram. O resultado costuma ser positivo (lembremos sempre que os governos que mais se recusavam a ver mérito em ideias "hereges" são exatamente os maiores traidores do nosso ideário; não há exemplo maior do que o stalinismo). O programa político da esquerda radical não é hegemônico por diversos fatores - influi, claro, o poder midiático e econômico associado às ideias mais "moderadas", mas, mais uma vez, não é a única explicação. Pode-se aprender muito, inclusive no intuito de repensar e reformar esses programas, com governos que, duplamente, conquistaram o eleitorado que deseja-se atingir e fizeram bem a esse eleitorado (de maneira algo elementar, melhorando a sua qualidade de vida, tirando-o da miséria e da fome, etc). Como incorporar as ações bem-sucedidas desses governos sem capitular tanto e sem se prostituir tanto? O desafio é esse, e só pode ser vencido se for reconhecido. Para irmos além das conquistas "básicas", é preciso, no mínimo, perceber que elas existem.

Fui extremamente prolixo (outro vício óbvio e velho da esquerda), mas a ideia que eu tentava apontar era: o abraço exclusivo aos ícones derrotados e puros é cômodo e um tanto fácil. Mais difícil é meter a mão na massa e procurar conselhos nos mais diversos lamaçais. É dever, porém, dessa esquerda que se diz defensora da pluralidade (que rejeita o pensamento único que tantas vezes nos derrotou e diminuiu) agir positiva e exemplarmente em relação ao contraditório. A nossa pureza utópica vale muito menos do que a busca incessante (e cansativa, e dolorida) por ideias melhores e, sim, mais funcionais. A vitória na derrota é uma narrativa a ser abraçada, por seu valor simbólico e desafiador da hegemonia ditatorial da falsa meritocracia absoluta. Mas as vitórias na vitória - por mais desanimadora que essa vitória seja - também são úteis e não podem ser abandonadas.